Corujão das 02:30
Aquele homem-asco continua, como sempre, encostado na grade esperando qualquer confiança testoronica que o leve a ter mais uma seqüência de ereções. Seus olhares apreensivos e seus toques certeiros são gestos clichês, hábitos do cotidiano noturno.
O pobre hetero corteja a única quase nem tão dama. Lógico boêmio. Lógico bêbado. Lógico esperançoso. Lógico Utópico. Se for uma vagabunda já esta cansada. Se for trabalhadora já é casada. Se for estudante já foi sapatão. Se for crente... Já era!
Parece que é a primeira vez daquele rapaz. Suas atitudes imaturas, como a proximidade dos famélicos sexuais, são coisas de principiantes. Não vai demorar muito para que ele se irrite com as propostas. Seu shortinho de tac-tel azul, com seu corpinho-escultural-marcado... Nem percebera que despertara a libido dos ávidos por falo. Sorte a Lotação 0342 passar antes do confronto.
A quase nem tão dama também fora no 0342, deixando assim aquele pobre bêbado sem-assunto-com-quem-conversar. O velho pederasta continuava com seus olhares certeiros a qualquer coisa e por isso os desviou até a mim. Não pude fazer muita coisa. O asqueroso da grade, amassando, caminhou até outro ponto... Sem esperanças, foram ele e o velho até um ponto escuro onde as bocas não se tocavam, mas tocavam. O corpo falava independente de imagens e desejos, enfelizeram-se! A moral do pobre- bêbado-boêmio-decadente-heterossexual se esvaiu com a chance de ejacular nas pernas de qualquer garota... Sua vontade de ir embora não era maior que o sono. Então aconchegou-se num banco imundo e fez o mesmo que faria em sua casa: sonhou com alguma quase dama que gozasse sua vida nem que fosse por 30 segundos. Minha espera-chata-observatória chega ao fim pontualmente às 02h30min, com o ônibus que interessantemente chega e abre suas portas.

Ele era velho, feio, mal-amado e decadente. Um louco de pedra auto-suficiente e pendente com a natureza. Uma contradição nata. Tudo o que um dia sonhou, realizou. Tudo o que fazia, dizia e seria... Absolutamente! Um dia ele acordou e viu que não dormiu, que chorou e não sorriu, que fez sorrir mas não quis. Que tudo o que era tudo, na verdade não era nada e que nada fazia sentido... Sentir! Os minúsculos músculos cerebrais o fundamentavam, o extraiam e designavam. Ele era aquilo, e mais um pouco... bem pouco.


